terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Entendendo, Mapeando e Avaliando o Risco - Parte 3/4

               

Daremos Sequência com o Terceiro Post.

Pessoas com deficiência


Entre os grupos mais vulneráveis a riscos de desastres estão as pessoas com deficiência
visual, auditiva e motora, além da deficiência mental ou intelectual. 

Numa circunstância de risco ou de desastre, demandam auxílios especiais para receber avisos e alertas, para se proteger e, se necessário, deixar suas casas, assim como para permanecer nos abrigos temporários.

De acordo com dados preliminares do Censo de 2010, o Brasil possui 45.623.910 de pessoas que têm, ao menos, uma dessas deficiências, o que representa 23,92% do total da população. 

Considerando o grau de severidade da deficiência visual, constatou-se que há, no Brasil, aproximadamente 528.624 pessoas cegas e 6.056.684 pessoas que enxergam com grande dificuldade. 

O total de pessoas com deficiência mental ou intelectual é de cerca de 2.617.025, o que representa 1,37% do total da população brasileira. 

Para saber mais: Você pode acessar o site da Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência Clicando aqui e obter maiores informações desses indicadores, bem como da legislação federal a respeito do tema.

Para saber mais: A preocupação internacional em relação ao tema das pessoas com deficiência em situações de desastres tem sido cada vez mais crescente. O Dia Internacional para a Redução de Desastres em 2013 teve como propósito intensificar as discussões em torno da temática. 

Para saber mais, visite o site: http://eird.org/americas/13/oct/2013/iddr/index.html.

Para saber mais: No Brasil, existem alguns estudos sobre o tema, como a dissertação “Do estigma social à invisibilidade: a pessoa com deficiência física nas políticas públicas voltadas para a redução de desastres”, de autoria de Débora Geraldi. Acesse esse estudo clicando aqui.

População em situação de rua

Ondas de frio são fenômenos que ocorrem principalmente na região Sul do país e porções da região Sudeste, podendo oferecer riscos de morte, principalmente para a população em situação de rua, que se encontra mais vulnerável a este tipo de perigo.

Por população em situação de rua se compreende as pessoas que estão utilizando, em um dado momento, como local de moradia ou pernoite, espaços de tipos variados situados sob pontes, marquises, viadutos, à frente de prédios privados e públicos, em espaços públicos não utilizados à noite, em parques, praças, calçadas, praias, embarcações, estações de trem e rodoviárias, à margem de rodovias, em esconderijos abrigados, dentro de galerias subterrâneas, metrôs e outras construções com áreas internas ocupáveis, depósitos e prédios fora de uso e outros locais relativamente protegidos do frio e da exposição à violência. 

São também considerados componentes da população em situação de rua aqueles que dormem em albergues e abrigos, de forma preferencial ou ocasional, alternando o local de repouso noturno entre estas instituições e os locais de rua (BRASIL, 2009).

Recentemente têm sido formuladas políticas públicas para inclusão desse segmento populacional em condição de alta vulnerabilidade social. Para tanto, tem se procurado dimensioná-lo e mapeá-lo. 

O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) realizou, entre agosto de 2007 e março de 2008, o I Censo e Pesquisa Nacional sobre População em Situação de Rua, em um levantamento que abrangeu 71 municípios brasileiros. 

Foram identificadas 31.922 pessoas maiores de 18 anos em situação de rua, o que equivale a 0,061% da população dessas cidades. 

Alguns desses municípios pesquisados situam-se em áreas sujeitas a ondas de frio e grandes quedas de temperatura, que podem oferecer riscos de hipotermia à população em situação de rua.

Dentre os municípios pesquisados, destacam-se Campinas/SP, com mais de mil pessoas vivendo nas ruas, e Curitiba/PR, com mais de 2.700. 

Outros municípios também são preocupantes do ponto de vista do risco supracitado, sobretudo pela severidade dos fenômenos meteorológicos, tal como o ocorrido em julho de 2013, quando ao menos 128 municípios da região Sul do país registraram neve. O município de São Paulo também sofreu esses efeitos, registrando ao menos três mortes de pessoas em situação de rua.

Novo levantamento foi realizado no final de 2013 e os dados em breve estarão disponíveis.

Mapeamento e avaliação do risco propriamente dito


Uma série de dados que serão necessários para o mapeamento e avaliação do risco propriamente dito, foram vistos anteriormente. No mapeamento de risco são indicadas as consequências adversas em potencial associadas à ocorrência de desastres. Para tanto, deve-se considerar:

• A suscetibilidade do terreno;

• A probabilidade temporal, ou seja, o perigo do fenômeno;

• A vulnerabilidade dos elementos expostos ao risco (ex. população, infraestrutura, atividades econômicas);

• Danos e prejuízos associados ao desastre em potencial (ex. número de mortos, feridos, prejuízos diretos e indiretos esperados).

A avaliação do risco geralmente é realizada de maneira qualitativa, devido à grande quantidade de dados envolvida na análise.

Entretanto, a avaliação do risco também pode ser elaborada de maneira quantitativa, onde o mapa é desagregado por graus de probabilidade de ocorrência, exprimindo o número de habitantes, as atividades econômicas, as instalações que poderão ser afetadas e outras informações consideradas relevantes.

Exemplo: Mapeamento de risco de inundações de um determinado local e elaboração considerando os danos e prejuízos causados a estrutura dos edifícios com a ocorrência de inundações com um tempo de retorno de 20 anos. 

Exemplo: a representação do risco a escorregamentos mostrada na Figura 12 foi elaborada por meio da combinação qualitativa de mapas, recortados considerando-se o mapa de perigo, vulnerabilidade, elementos expostos e danos potenciais.

Entre as técnicas de avaliação qualitativa de riscos destaca-se a metodologia aplicada
pelo IPT e CPRM para mapear o risco à inundação e a escorregamentos. 

Nestes estudos, os setores de risco são identificados com base na opinião da equipe durante a execução de trabalhos de campo, auxiliada pela aplicação de fichas, utilização de fotografias aéreas oblíquas e imagens de satélite. Esta setorização está sendo realizada nos 821 municípios prioritários. 

Para acessar a lista de municípios acesse:  htttp://www.brasil.gov.br/observatoriodaschuvas/municipios-selecionados.html.

O zoneamento do risco por meio desta técnica envolve a delimitação de zonas homogêneas em relação ao grau de probabilidade de ocorrência do processo considerando os seus danos.

O zoneamento das áreas de risco a escorregamentos utilizado pelo IPT e CPRM pode ser dividido, de maneira geral, nas seguintes etapas:

a) Pré-setorização: nessa etapa avaliam-se alguns parâmetros básicos como:

• Declividade da encosta;

• Tipo do processo (queda, tombamento, escorregamento, etc.);

• Posição da ocupação em relação à encosta;

• Qualidade da ocupação e sua vulnerabilidade.

b) Setorização do risco: essa etapa é realizada com base em:

• Auxílio de fichas de campo, também chamados de check list;

• Uso de plantas, mapas, ou mesmo guias de ruas;

• Uso de fotografias aéreas e imagens de satélite;

• Uso de fotografias oblíquas de baixa altitude, coletadas desde helicópteros;

• Trabalhos de campo com equipe treinada;

• Conhecimento do histórico da área.

Exemplo: Nota-se que no mapeamento das áreas de risco elaborado pela CPRM são indicados o grau de risco, a quantidade de casas e de pessoas em risco e algumas ações necessárias para a sua mitigação.

A setorização do risco a movimentos de massa e inundações, está sendo realizada pela CPRM nos 821 municípios prioritários.

Hierarquização dos riscos -> A hierarquização de riscos consiste na definição do grau de risco de um determinado processo de desastre ocorrer em um dado local. Essa definição é feita de forma probabilística, com a utilização de diferentes variáveis dependendo do tipo de processo analisado.

Em função do grande número de processos e variáveis que podem ser analisados, existem diferentes metodologias utilizadas para hierarquizar os riscos.

Essa etapa é considerada essencial na fase de prevenção de desastres, pois é através da hierarquização de riscos que são definidas as áreas prioritárias para o gerenciamento de riscos de desastres.

Como exemplo, a metodologia de hierarquização de risco utilizada pelo Serviço Geológico Brasileiro (CPRM).

*Graus  de Risco:

Risco 1 (Baixo) -> Não há indícios de desenvolvimento de processos destrutivos em encostas e margens de drenagens. 

Mantidas as condições existentes, não se espera a ocorrência de desastres destrutivos.

Risco 2 (Médio) -> Observa-se a presença de alguma(s) evidência(s) de instabilidade (Encostas e margens de drenagem, porém incipiente(s).

Mantidas as condições existentes, é reduzida a possibilidade de ocorrência de eventos destrutivos durante episódios de chuvas intensas e prolongadas.

Risco 3 (Alto) -> Observa-se a presença de significativa(s) evidência(s) de instabilidade (Trincas no solo, degraus de abatimento em taludes etc).

Mantidas as condições existentes, é perfeitamente possível a ocorrência de eventos destrutivos durante episódios de chuvas intensas e prolongadas.

Risco 4 (Muito Alto) -> As evidências de instabilidade (Trincas no solo, degraus de abatimento em taludes, trincas em moradias ou em muros de contenção, árvores ou postes inclinados, cicatrizes de escorregamento, feições erosivas, proximidade da moradia em relação ao córrego etc.) são expressivas e estão presentes em grande número ou magnitude. 

Mantidas as condições existentes, é muito provável a ocorrência de eventos destrutivos durante episódios de chuvas intensas e prolongadas.

Recursos utilizados no mapeamento de risco



Diversos recursos são utilizados para o mapeamento de risco, em diferentes áreas e em diferentes níveis de precisão. É importante lembrar que alguns desses recursos estão disponíveis de forma gratuita, porém muitos possuem custos para serem adquiridos e estes custos devem ser adequados às verbas existentes para tanto. 



Entre as principais informações espaciais que podem ser empregadas para o mapeamento, destaca-se a utilização de imagens de satélite do Google Earth para localização das áreas visitadas; os limites municipais e setores censitários1 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), que contêm informações sobre as características da população residente em um espaço geográfico menor do que o limite municipal.

Como exemplo de recursos, são citados:

Levantamentos aerofotogramétricos, imagens de satélite e fotos aéreas:

• Identificação de área de risco e de setores de risco (setorização preliminar);

• Auxílio em levantamentos de campo para a setorização das áreas de risco.

• Georreferenciamento de dados e imagens e construção de banco de dados georreferenciados;

• Coleta de coordenadas geográficas em campo;

• Elaboração de mapas em um Sistema de Informação Geográfica (SIG);

• Processamento digital de imagens de satélite, fotos aéreas e dados de levantamentos por radar.

Alguns SIG são disponibilizados gratuitamente ao público, a exemplo do software SPRING (Sistema de Processamento de Informações Georeferenciadas), desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Para acesso aos tutoriais e download do software SPRING, clique aqui. 

Base de dados

• Vinculação de diferentes fontes de base de dados georreferenciadas relacionados
e utilização das mesmas na elaboração de mapas em um SIG.

Níveis de detalhamento e escalas recomendadas para cada tipo de mapeamento


Para que a reprodução dos elementos físicos em um mapa plano seja possível é necessário que os mesmos sofram reduções em suas proporções reais. Isso ocorre por meio da definição de escalas de mapeamento, as quais indicam o nível de detalhamento dos elementos. Dessa forma, a escala pode ser compreendida como a relação entre a dimensão representada do objeto no mapa e sua dimensão no espaço geográfico real (CRUZ; MENEZES, 2009).

A seleção da escala de trabalho é um dos pontos fundamentais de qualquer estudo relacionado com o mapeamento de desastres, inexistindo uma escala única para estudar esses processos. 

A seguir serão apresentados os principais conceitos relacionados com o tema e sugestões de escalas mais apropriadas para cada tipo de mapeamento.

A escala de mapeamento sempre deverá ser indicada nos mapas, por meio de uma escala numérica e/ou gráfica. A escala numérica é indicada em forma fracionária, sendo que o numerador representa a medida no mapa e o denominador a medida da superfície real.

Exemplo: a escala 1:10.000 significa que cada 1 cm no mapa corresponde a 10.000 cm ou 100 metros no espaço real

Na escala gráfica a correspondência entre um objeto no mapa e no espaço real é indicada através de uma reta graduada. Nesse exemplo, cada centímetro do mapa corresponde a 4 quilômetros na realidade.

Frequentemente são empregadas expressões como escala maior ou menor entre diferentes mapas, o que pode trazer confusões. 

O termo escala maior, indica uma menor redução dos elementos físicos representados no mapa, ou seja, esses elementos podem ser mais bem visualizados, com maior nível de detalhamento. O inverso se aplica nas escalas menores, ou seja, a utilização de uma escala menor indica uma maior redução dos elementos representados no mapa e esses, por sua vez, terão um menor nível de detalhamento.

É importante salientar que quanto maior a escala, maior será o custo associado ao mapeamento e menor será a área mapeada.

Surge então a dúvida sobre qual escala deve ser utilizada para realizar os mapeamentos referentes a desastres. O fato é que não existe uma escala única a ser adotada para a elaboração dos mapas. 

A escala a ser adotada irá depender dos seguintes fatores:

* Tipo de ameaça analisada;

* Resultados que se pretende alcançar com o estudo;

* Grau de detalhamento desejado;

* Extensão da área de estudo;

* Método utilizado no mapeamento (quantitativo ou qualitativo);

* Tipo de área estudada (urbana ou rural);

* Financiamento disponível;

* Qualidade das bases digitais existentes.

Existem algumas propostas que sugerem as escalas de detalhamento mais adequadas para cada tipo de mapeamento.

Cabe salientar que as escalas variam conforme o evento analisado, pois para cada processo uma escala é mais adequada que outra, por exemplo, no caso de vendavais ou secas é inviável realizar mapeamentos em escalas detalhadas (>1:5.000), já para os deslizamentos, essa escala é a mais adequada. Uma proposta de escalas aplicáveis a cada tipo de perigo natural.

A escala pequena, que varia de 1:1.100.000 a 1:100.000, permite identificar áreas suscetíveis a perigos naturais em nível geral e com um baixo detalhe. Esta escala é utilizada principalmente em projetos de planejamento em nível nacional ou regional, visando ao planejamento do uso do solo em longo prazo.

A escala média, que varia de 1:100.000 a 1:25.000, permite identificar quantas áreas de risco existem no território analisado. A partir dela é possível definir as prioridades para o mapeamento de detalhe, além disso, os mapas executados nesta escala são adequados aos estudos do meio físico visando à aplicação de instrumentos de planejamento
territorial. 

A maior parte dos dados geomorfométricos, censitários e temáticos do território brasileiro encontra-se disponível nessa escala. O mapeamento nesse nível de detalhe é fundamental para evitar o aparecimento de novas áreas de risco e para gerenciar as já existentes.

A escala grande, que varia de 1:25.000 a 1:5.000, começa a apresentar um maior refinamento no nível de detalhe, aplicável ao mapeamento de eventos como deslizamentos e inundações, por exemplo.

A escala muito grande, que é maior que 1:5.000, é a mais adequada para a gestão das áreas de risco. 

Os planos de contingência de Defesa Civil são elaborados com base em mapas nesse nível de detalhe, sendo que a partir deles é possível identificar as áreas críticas para a realização de intervenções estruturais e não estruturais, além de permitir a realização do monitoramento das áreas de risco.

Por Hoje, é Só! Daremos sequência nesse Assunto no Quarto e Último Post. Fiquem a Vontade para Curtir, Compartilhar, Twittar, Fazer Comentários ou Dar Sugestões.






Referências:
https://moodle.ufrgs.br/pluginfile.php/1116073/mod_resource/content/7/Cap%C3%ADtulo%205%20-%20Apostila%20-%20Mapeando%20e%20avaliando%20o%20risco.pdf