segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Entendendo as Inundações Bruscas em Pernambuco - Junho de 2010 - Parte 1/4

            

Em junho de 2010, Pernambuco enfrentou a pior temporada de chuvas dos últimos anos. Entre os dias 17 e 18 de junho, uma Onda de Leste atingiu o estado e, em 24 horas, choveu 70% do volume esperado para todo o mês.  A forte chuva nas cabeceiras dos rios causou enxurradas violentas ao longo das margens dos rios Una e Jaboatão e a força das águas destruiu cidades inteiras como os municípios de Palmares e Barreiros. 

Sessenta e sete municípios foram afetados, dentre os quais 12 decretaram situação de calamidade pública e 30 entraram em situação de emergência. Apesar da magnitude do desastre, a rápida ação do estado minimizou os danos humanos e foram registradas 20 mortes como conseqüência do evento.

As perdas e danos estimados, no entanto, foram significativos: R$ 3.4 bilhões, concentrados principalmente no setor social. Apenas no setor habitacional, com mais de 16 mil casas populares destruídas, as perdas e danos foram estimados em R$ 2 bilhões, o que representa 62% do custo total do desastre. As áreas de educação e saúde sofreram perdas e danos de R$ 286.5 milhões e R$ 145.5 milhões, respectivamente.

No setor habitacional, além dos danos, as perdas também são elevadas em função das necessárias medidas de redução de vulnerabilidade, como a construção de barragens e mudança para local seguro. É importante destacar que embora a maior parte do impacto seja de propriedade privada, o estado assume uma parcela relevante dos custos de reconstrução das moradias populares e oferece auxílio-aluguel para as famílias atingidas. Com isso, em termos financeiros o impacto sobre o setor público tende a superar aquele sobre o setor privado.

Nos demais setores, as perdas e danos foram significativamente menores. No setor de infraestrutura, chegaram a R$ 428 milhões, valor que reflete principalmente os danos causados às rodovias e estradas vicinais da região. 

No setor de saneamento, é estimado um impacto de R$ 36 milhões, e na área de infraestrutura de energia não foram obtidas informações detalhadas, mas dados preliminares sugerem um impacto de, no mínimo, R$ 12 milhões. No setor de telecomunicações não foi possível acessar informações relevantes a respeito do impacto das inundações sobre os equipamentos e linhas de comunicação das empresas privadas.

Nos setores econômicos, as perdas e danos foram estimados em R$ 424 milhões (indústria, agricultura, comércio e serviços). Na agricultura, os danos chegaram a R$ 64 milhões. No comércio, os impactos diretos e indiretos somaram R$ 326 milhões e correspondem principalmente à micro e pequenas empresas dos municípios onde a destruição foi maior.

Esse padrão sugere uma concentração do impacto sobre a população de baixa renda e sobre o setor público. O setor habitacional concentra mais de 60% das perdas e danos e é composto principalmente pelo custo de reconstrução das moradias populares destruídas e das obras de redução de vulnerabilidade, o que revela a elevada exposição dos extratos sociais de renda mais baixa ao desastre e sugere que as implicações em termos de bem-estar são relevantes tanto pela importância da habitação para a qualidade de vida das famílias, como pelo prazo de reconstrução tradicionalmente prolongado, que pode chegar a anos. 

Além disso, embora os danos no setor habitacional sejam de propriedade privada, tanto o esforço de reconstrução como a gestão das moradias temporárias recaem principalmente sobre o estado (que oferece abrigos e paga auxílios financeiros aos desabrigados). Conseqüentemente, as chuvas de junho de 2010 se transformaram em pressão adicional sobre as contas públicas. 

As perdas, estimadas em R$ 1.4 bilhão, correspondem a 40% dos custos totais. O alto custo das obras de readequação e redução de vulnerabilidade, principalmente no setor habitacional, é o principal canal de impacto indireto identificado em Pernambuco. Parte significativa dessas perdas refere-se a medidas de redução de vulnerabilidade que também são responsabilidade do poder público, o que reforça o impacto fiscal do desastre em Pernambuco. 

Entre os dias 17 e 19 de junho de 2010, 67 municípios da Mata Pernambucana, do Agreste de Pernambuco e da Região Metropolitana do Recife foram atingidos por fortes chuvas durante a que foi considerada a pior temporada chuvosa da década (Relatório Ação, Pernambuco, 2011). 

Como resultado do fenômeno Onda Leste,caracterizado pela conjunção de ventos fortes do oceano em direção ao interior do estado, por uma grande concentração de nuvens nas cabeceiras dos rios e por um aquecimento acima do esperado da massa do Oceano Atlântico, em 24 horas choveu 180 milímetros na região, cerca de 70% do volume esperado para o mês de junho.

As inundações brucas em junho de 2010 marcaram o estado de Pernambuco, mas não foram um evento isolado: nos últimos anos, os sistemas atmosféricos La Niña, Zona de Convergência Intertropical, Vórtices Ciclones de Altos Níveis e Distúrbios Ondulatórios de Leste (ou Ondas de Leste) têm causado eventos extremos de precipitação na região do Recife (GIRÃO et al., 2011). 

Segundo o Atlas Brasileiro de Desastres Naturais, em Pernambuco, as inundações bruscas e alagamentos causados por fortes chuvas geraram 345 registros oficiais de desastres entre 1991 e 2010, e as regiões Metropolitana e da Zona da Mata foram as mais atingidas por esse tipo de evento. Em um período de vinte anos, nota-se que as inundações bruscas foram mais frequentes nos meses de junho (118 registros), sendo que apenas em junho de 2010, quando em 11 dias de chuva a média pluviométrica foi de 219 mm, foram registrados 65 episódios. 

Entre os 67 municípios afetados, 42 decretaram (tabela 1) estado de calamidade pública (ECP) ou situação de emergência (SE) depois que ondas em alta velocidade e com alto poder de destruição derrubaram casas, hospitais, prédios da administração pública, escolas, estabelecimentos comerciais, pontes, estradas e outros equipamentos. 

região mais afetada fica às margens dos Rios Una e Jaboatão, na Zona da Mata (Sul) e no Agreste Pernambucano, sendo que em municípios como Barreiros e Palmares, todo o território municipal foi coberto pelas águas.

Nas operações de resgate e salvamento foram mobilizadas 15 equipes do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) que operavam 11 ambulâncias, 09 helicópteros, 19 embarcações, 39 carros de resgate e muitas outras máquinas pesadas.

Foram resgatadas mais de 1.100 pessoas em 1.230 trinta ações de resgate aéreo. Além disso, foram realizadas 980 ações de resgates marítimos à população isolada nas áreas alagadas. No dia 20 de junho de 2010, o Governo do Estado de Pernambuco instituiu o Gabinete de Gestão de Crise, grupo integrado por 15 secretarias e coordenado diretamente pelo Governador. 

Entre os dias 23 e 24 de junho, foram instalados os escritórios locais (22 unidades instaladas na área afetada) e a partir de então começou a ser estruturada a Operação Reconstrução do estado. 

De acordo com a contagem populacional do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2007, a área afetada possuia 5.152.154 habitantes, o que significa que mais de 60% da população do estado de Pernambuco (8.486.638) vivia nos municípios atingidos.

De acordo com informações da Defesa Civil (Avadans – Relatórios de Avaliação de Danos), 740.001 pessoas foram diretamente afetadas pelo desastre, o que representa 15% da população da área atingida, ou cerca de 9% da população do estado.

Os municípios que decretaram situação de calamidade pública não concentram a população afetada e desabrigada em termos absolutos porque são municípios pequenos, quase todos com menos de 50 mil habitantes (exceto Vitória de Santo Antão, com 121.123 habitantes), ao passo que Jaboatão dos Guararapes tem mais de 600 mil habitantes e por isso está entre os municípios mais atingidos em termos absolutos.

Todavia, em termos relativos, os municípios menores foram os mais gravemente atingidos, com toda a população diretamente afetada em casos como os de Palmares, Barreiros e Maraial, onde a destruição foi quase total. 

Além desses, outros nove municípios tiveram mais da metade da população diretamente afetada pelas inundações, números que evidenciam tanto a magnitude do evento, cujo poder destrutivo foi reforçado pelos transbordamentos dos rios e pela a saturação do solo (Atlas Brasileiro de Desastres Naturais), como o estado caótico instituído nas regiões mais severamente atingidas. 

Cabe ressaltar que, dadas as proporções do desastre, o reduzido número de vítimas fatais foi resultado da ação do Governo do Estado, que mobilizou a população através de seus sistemas de alerta e realizou diversas operações de resgate, conseguindo, com isso, evitar outras perdas humanas. 

Em Barreiros, que teve toda a população afetada, mais de 70% das pessoas foram obrigadas a deixar suas casas (desabrigados e desalojados). Em Água Preta, 39% da população ficou desabrigada ou desalojada, padrão que se repete em outros municípios que sofreram com as enchentes. Esses números evidenciam o que será detalhado adiante: o setor habitacional foi o mais afetado pelo desastre, concentrando 61% das perdas e danos registrados. 

Ao longo dos últimos vinte anos, as inundações bruscas foram os eventos extremos que mais desabrigaram, feriram e mataram a população pernambucana. Das 72 mil pessoas desabrigadas como consequência dos desastres registrados entre 1991 e 2010, cerca de 64 mil recorreram aos abrigos públicos depois de uma inundação brusca. Dos quase 22 mil feridos ao longos dos anos, apenas 257 se feriram durante outro tipo de evento. 

Por outro lado, as secas - o desastre mais frequente no estado - são fenômenos de amplo alcance e, com isso, a população afetada por inundações bruscas desde 1991 corresponde a cerca de 25% das pessoas afetadas por desastres em Pernambuco. 

Dentro desse contexto, o evento de junho de 2010 se destaca também em termos dos danos humanos que causou. 

Os desabrigados em 2010, por exemplo, representam 13% da população pernambucana desabrigada por desastres ao longo dos últimos 20 anos. O mês de junho, que costuma castigar Pernambuco com estiagens e secas e, ao mesmo tempo, com inundações bruscas e alagamentos, em 2010 foi especialmente difícil para o pernambucanos que, dois anos depois, ainda trabalham na reconstrução da área afetada.

Por Hoje, é Só! Mas, Daremos Continuidade a Esse Assunto no Próximo Post. Espero Vocês! Até Lá......

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Referências:
https://moodle.ufrgs.br/pluginfile.php/1118814/mod_resource/content/1/Inunda%C3%A7%C3%B5es%20Bruscas%20em%20Pernambuco%20-%20Banco%20Mundial.pdf