sábado, 29 de novembro de 2014

Inundações e Deslizamentos na Região Serrana do Rio de Janeiro - Janeiro de 2011 - Parte 1/4

            

Entre os dias 11 e 12 de janeiro de 2011, chuvas de grande intensidade deflagraram o que seria considerado o pior desastre brasileiro dos últimos tempos: as inundações e deslizamentos da Região Serrana do Rio de Janeiro, evento que causou 9051  mortes em sete cidades e afetou mais de 300 mil pessoas, ou 42% da população dos municípios atingidos.

De acordo com informações do DRM-RJ (Departamento de Recursos Minerais do Rio de Janeiro), a entrada de massas de ar provenientes da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS)2  na Região Serrana do Rio de Janeiro, associada ao uso e ocupação do solo, bem como às chuvas antecedentes e erosões fluviais e pluviais, culminaram nos deslizamentos e inundações na região. 

Segundo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), em dois dias a estação do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) registrou 166 milímetros de chuva em Nova Friburgo, mais de 70% do valor médio histórico para o mês. 

Areal, Bom Jardim, Nova Friburgo, São José do Vale do Rio Preto, Sumidouro, Petrópolis e Teresópolis decretaram estado de calamidade pública (ECP).

Além destes, também foram afetados os municípios de Santa Maria Madalena, Sapucaia, Paraíba do Sul, São Sebastião do Alto, Três Rios, Cordeiro, Carmo, Macuco e Cantagalo.

Entre bombeiros, funcionários das defesas civis e das prefeituras, mais de mil homens chegaram a trabalhar nas operações de resgate. 

A Força Nacional de Segurança Pública, a Marinha, a Aeronáutica, os governos dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e Minas Gerais também se envolveram nos resgates oferecendo helicópteros, efetivos, medicamentos, unidades móveis de atendimento médico e suprimentos, bem como outros tipos de suporte aos municípios afetados. Uma mega operação para um mega desastre.

Ao mesmo tempo em que as inundações e deslizamentos de janeiro de 2011 marcaram a região serrana e o estado do Rio de Janeiro, essa tipologia de evento é recorrente na região. 

De acordo com o Atlas Brasileiro dos Desastres Naturais, entre 1991 e 2010, 42% dos registros de desastres naturais (625, no total) correspondem a fenômenos de inundações bruscas (260 registros) e 22% a movimentos de massa (140 registros). 

As inundações graduais são a segunda tipologia mais freqüente no estado, com 155 registros no período de vinte anos, o que corresponde a 25% dos eventos registrados no Rio de Janeiro.

Entre os municípios mais atingidos no estado, Petrópolis é a cidade com o maior número de registros oficiais: foram 28 registros no período, sendo 17 movimentos de massa e 11 de inundações (bruscas ou graduais), segundo o Atlas Brasileiro dos Desastres Naturais. 

Em Teresópolis, dos 13 registros oficiais de desastres, cinco são referentes a movimentos de massa e 8 de inundações. 

Areal, Nova Friburgo, Bom Jardim, Sumidouro, São José do Vale do Rio Preto também já sofreram com inundações ou deslizamentos de terra no passado e, de acordo com relatório do CEPED/UFSC sobre a região, nos últimos anos o intervalo entre esses eventos tem diminuído.

De acordo com o Censo de 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), nos sete municípios que entraram em estado de calamidade pública viviam 713.652 pessoas, ou 4.46% da população do estado do Rio de Janeiro (15.989.929). 

Segundo informações dos Avadans (Relatórios de Avaliação de Danos), 304.562 pessoas foram diretamente afetadas pelo desastre, o que representa 42.68% da população dos sete municípios e 1.9% da população do estado do Rio de Janeiro.

A cidade de Nova Friburgo reportou 180 mil afetados e, com isso, concentrou 60% da população atingida pelo desastre. A população desabrigada, por sua vez, concentrou-se em Teresópolis (41%). 

Os desabrigados em Nova Friburgo e Petrópolis representam 23% e 17% do total, respectivamente. De fato, de uma forma geral esses três municípios concentraram a maior parte do impacto das inundações e deslizamentos, porém, nas cidades menores, em termos relativos o impacto foi significativo. 

Em São José do Vale do Rio Preto e em Sumidouro, com 20.251 e 14.900 habitantes, respectivamente, toda a população foi afetada pelo desastre.

Em Areal, onde 61% da população foram afetadas, aproximadamente 22% dos habitantes tiveram que deixar suas casas (desabrigados e desalojados). 

Em Teresópolis, cerca de 10% da população ficou desabrigada ou desalojada. É muito importante ressaltar que, em termos de danos humanos, o desastre da Região Serrana foi um evento sem precedentes e que a situação extrema estabelecida durante a fase emergencial pós desastre também se reflete na qualidade das informações dos Avadans, parciais e incompletas.

Ademais, diferentes instituições de todo o País se envolveram nas atividades de assistência às vítimas, o que dificultou a coleta e a compatibilização dos dados de diversas fontes.

Sendo assim, as informações oficiais a respeito dos danos humanos são suficientes para evidenciar a magnitude e o alcance do desastre, mas devem ser consideradas com cautela.

Entre 1991 e dezembro de 2010, no estado do Rio de Janeiro foram registradas 1.783 vítimas fatais por desastres naturais (Atlas Brasileiro dos Desastres Naturais), enquanto apenas no evento da Região Serrana, em janeiro de 2011, a Polícia Civil contabilizou 905 mortos. 

Por sua vez, o número de desabrigados durante o desastre de 2011 é equivalente a mais de 20% do número de desabrigados por desastres no estado do Rio de Janeiro no período 1991-2010. 

Assim, fica claro porque, embora deslizamentos e inundações sejam eventos recorrentes no estado do Rio de Janeiro e também na região serrana, o mega desastre de janeiro de 2011 marcou o País.

As inundações e deslizamentos da Região Serrana do Rio de Janeiro em janeiro de 2011 ficaram conhecidos como o pior desastre brasileiro em termos de danos humanos, mas as perdas e danos econômicos também foram significativos, com implicações relevantes sobre a qualidade de vida dos sobreviventes e para a atividade econômica na região, que mais de um ano depois ainda está longe de recuperar seu status pré-desastre.

As perdas e danos totais foram estimados em R$ 4.8 bilhões, valor que, no entanto, omite impactos relevantes em setores como o da educação e o da saúde, que não puderam ser considerados em função da indisponibilidade de informações detalhadas. 

Dos custos totais, R$ 2.2 bilhões (46%) correspondem aos danos, custos diretos das inundações e deslizamentos. Por sua vez, as perdas (custos indiretos do desastre) foram estimadas em R$ 2.6 bilhões (54% dos custos totais).

O impacto foi concentrado no setor social, cujas perdas e danos representam 58% dos custos estimados. Esse número reflete principalmente as perdas e danos no setor habitacional, estimados em R$ 2.6 bilhões. Nos setores de infraestrutura e produtivos, os custos diretos e indiretos do desastre foram estimados em R$ 1 bilhão e R$ 896 milhões, respectivamente.

O setor habitacional concentrou 55% das perdas e danos estimados em função do alto custo das obras de contenção de encostas, de outras medidas de redução de vulnerabilidade e do programa de reassentamento das famílias afetadas pelas inundações e deslizamentos. 

No setor de infraestrutura de transportes, cujas perdas e danos correspondem a 13% do custo total, o principal efeito do evento foi a destruição de pontes, rodovias e estradas vicinais, que além impor ao estado elevados custos de recuperação, afetam outros setores, gerando perdas para o setor privado. 

No setor de saneamento básico, a recuperação dos canais e das redes principalmente sobre o setor público.

De fato, aproximadamente dois terços das perdas e danos estimados são de propriedade pública. 

No setor privado, o impacto sobre as atividades industriais, sobre a agricultura e, sobre o comércio local, além daquele observado no setor habitacional, implicaram em custos diretos e indiretos da ordem de R$ 1.6 bilhões. 

Em todo caso, vale mencionar que a recuperação das unidades residenciais populares (assim como outros danos nos demais setores) tende a ser absorvida pelo setor público, de modo que o impacto fiscal das inundações e deslizamentos pode ser reforçado por diversos canais de propriedade privada.


Por Hoje, é Só! Daremos sequência nesse Assunto no Próximo Post. Fiquem a Vontade para Curtir, Compartilhar, Twittar, Fazer Comentários ou Dar Sugestões.






Referências:
https://moodle.ufrgs.br/pluginfile.php/1118816/mod_resource/content/1/Inunda%C3%A7%C3%B5es%20Bruscas%20em%20Santa%20Catarina.pdf