domingo, 30 de novembro de 2014

Entendendo, Mapeando e Avaliando o Risco - Parte 1/4

            

A gestão de risco implica, em primeiro lugar, no conhecimento do risco sob a qual uma sociedade está exposta, por meio do seu mapeamento e avaliação. 

Essa etapa, prevista no Art. 6° da Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (BRASIL, 2012), subsidia o estabelecimento de medidas preventivas e corretivas nas áreas prioritárias.

Dentre os tipos de mapeamentos existentes, destaca-se o mapeamento de suscetibilidade, ameaça, perigo e vulnerabilidade, os quais conjuntamente resultarão no mapa final de risco em uma determinada área. 

A partir dos dados obtidos nesses estudos, são realizadas atividades de prevenção, mitigação e preparação (gestão de risco), bem como de resposta e recuperação (gerenciamento de desastres). 

Mapeando e avaliando a suscetibilidade




A suscetibilidade constitui-se no primeiro passo para a avaliação de risco. Ela indica a potencialidade de ocorrência de processos naturais e tecnológicos em uma área específica, sem considerar seu período de recorrência e seus possíveis danos e prejuízos.


O conhecimento da suscetibilidade é de grande importância aos municípios, e está previsto no Plano Nacional de Gestão de Riscos e Resposta a Desastres Naturais. 

Esse mapeamento contribui para o planejamento do uso e ocupação do solo, controle da expansão urbana e avaliação de cenários potenciais de risco. Além disso, ele pode auxiliar na elaboração de medidas de restrição à ocupação, de modo a evitar a formação de novas áreas de risco (CPRM, 2014). 

Com o avanço das geotecnologias (SIG, GPS e sensoriamento remoto) muitas técnicas têm sido propostas para mapeamento e avaliação da suscetibilidade, sendo que não existe um método melhor ou mais adequado. A preferência por um ou outro método irá depender:

• Da disponibilidade, qualidade e precisão dos dados existentes;

• Da escala de mapeamento adotada;


• Da capacidade técnica da equipe para uso das ferramentas disponíveis;

• Dos resultados esperados;

• Da relação custo/benefício.

De maneira geral, os métodos de mapeamento e avaliação da suscetibilidade podem ser divididos em quantitativos e qualitativos. Essa divisão pode ser aplicada também para o mapeamento e avaliação de perigo e risco.

Métodos qualitativos -> Combinação de mapas -> Análise no campo

Métodos quantitativos -> Análise estatística -> Análise determinística -> Análise probabilística

Por exemplo: O método deve ser selecionado em função da escala de trabalho.

* A avaliação da suscetibilidade em áreas extensas, como uma bacia hidrográfica ou um município, pode ser realizada por meio de métodos qualitativos, em escalas médias;

* Já para áreas pequenas, como uma encosta isolada ou o segmento de um rio, o mapeamento pode ser auxiliado por investigações quantitativas com abordagens determinísticas, em escalas grandes.

Os métodos qualitativos são inteiramente baseados no conhecimento e na opinião de especialistas. Eles são de fácil aplicação, no entanto seu inconveniente principal está em sua subjetividade, já que o resultado depende diretamente do conhecimento de quem está avaliando. Dessa forma, é essencial que os mesmos possuam um conhecimento detalhado dos processos em análise.

Os métodos qualitativos podem ser divididos em: execução de análises no campo e combinação de mapas de fatores condicionantes.

No âmbito do Plano Nacional de Gestão de Riscos e Resposta a Desastres Naturais, a elaboração de Cartas municipais de suscetibilidade a movimentos de massa e inundações ficou a cargo do Serviço Geológico Brasileiro (CPRM), o qual irá mapear 286 municípios prioritários.

A metodologia utilizada pela CPRM tem base qualitativa e varia de acordo com as condições do local. De uma maneira geral, a metodologia adotada pode ser dividida em 5 passos principais.

Exemplo: A Figura 3 apresenta o mapa de suscetibilidade a movimentos de massa e inundações elaborado pela CPRM para o município de Santa Maria Madalena, RJ. Para a confecção desse mapa se utilizou uma metodologia qualitativa baseada na combinação dos seguintes mapas:

* Geologia;

* Declividade;

* Padrões de relevo;

Exemplo: O mapa de suscetibilidade à ocorrência de incêndios foi elaborado a partir do método qualitativo denominado combinação de mapas. Foram sobrepostos os seguintes fatores:

• Total de radiação solar;

• Forma das encostas;

• Combustibilidade.

Os métodos quantitativos buscam reduzir a subjetividade, através da quantificação dos graus de suscetibilidade em valores absolutos.

Eles podem se basear em análises estatísticas, comparando-se a distribuição espacial dos acidentes e desastres já ocorridos com os fatores condicionantes considerados. Podem ainda se basear em análises determinísticas, as quais utilizam modelos matemáticos para quantificar a suscetibilidade.

O que diferencia a classificação dada para a elaboração dos mapas de suscetibilidade das é a base de informações para sua elaboração.

Apenas olhando as figuras não é possível saber como foram elaboradas. Os níveis de suscetibilidade são definidos pela opinião de especialistas (que varia de acordo com a percepção de cada um) enquanto que em outras são delimitados por informações anteriores e modelos matemáticos.

Há ainda mapas de suscetibilidade elaborados a partir de modelos determinísticos. Para saber mais a respeito e ver alguns exemplos aplicando as técnicas SHALSTAB e SINMAP (ambas utilizam uma combinação de modelos), acesse a referência: MICHEL et al., 2012.

Mapeando e avaliando a ameaça e o perigo


Entende-se como ameaça a condição que evidencia a possibilidade de ocorrência de eventos adversos, com capacidade de causar danos e prejuízos. Na avaliação da ameaça não se inclui nenhum tipo de previsão, ou seja, não é avaliada a probabilidade de que esses processos ocorram.

Já o perigo é a situação que tem potencial para causar consequências indesejáveis, para a qual é possível fazer uma estimativa de intervalos de tempo de ocorrência (frequência). Na avaliação do perigo, a suscetibilidade é combinada com os fatores desencadeantes, como por exemplo, o tempo de retorno (TR) de chuvas intensas, o que permite estabelecer uma frequência determinada para os eventos potenciais.

Dessa forma, a avaliação do perigo é resultante da combinação das informações do mapa de inventário de processos (frequência de inundações, deslizamentos, erosões, etc.) e do meio físico (suscetibilidade: tipo de solo, declividade, clima, entre outros).

Assim como a suscetibilidade, o mapeamento e avaliação de perigo podem ser realizados de maneira quantitativa e qualitativa, seguindo as mesmas técnicas apresentadas anteriormente, as quais são:

• Análise no campo;

• Combinação de mapas;

• Análise estatística;

• Análise determinística;

• Análise probabilística.

O perigo é quantificado sob a forma de probabilidade e, portanto, não é definido através de uma unidade de medida, ou seja, é adimensional.

O perigo pode ser definido de forma qualitativa, como alto, médio ou baixo. Mas também pode ser avaliado de forma quantitativa, neste caso em termos de probabilidade de ocorrência de um processo que venha a causar algum dano considerando-se um intervalo de tempo em um determinado local.

Exemplo: 5% de chance de que ocorra uma estiagem nos próximos dois anos e que cause perda da produção agrícola em uma determinada área rural.

Exemplo: Um mapa de perigo a terremotos elaborado por meio de modelos probabilísticos. Esse mapa ilustra a probabilidade de que ocorram terremotos com 0,2 segundos de duração no Hawaii, com uma probabilidade de excedência de 10% em 50 anos. 

A avaliação do perigo a inundação pode ser elaborada de maneira qualitativa, conforme o roteiro apresentado a seguir:

• Levantamento preliminar e georreferenciamento de ocorrências de inundação: levantamento de informações sobre o meio físico da área em estudo para a elaboração de um cadastro com as ocorrências desses processos, o que permitirá identificar a probabilidade qualitativa desses eventos ocorrerem no futuro;

• Execução de trabalhos de campo e espacialização dos dados: com o cadastro é possível selecionar as áreas mais críticas para a realização de trabalhos de campo para verificação e caracterização dos fenômenos ocorridos.

• Delimitação e caracterização de setores de perigo e inundação: os setores de perigo buscam expressar a probabilidade de ocorrência dos processos perigosos, sua distribuição espacial (abrangência), intensidade e recorrência (com intervalo de tempo).

• Delimitação dos Setores de Perigo: tem por finalidade delimitar a abrangência espacial das classes de nível de atingimento, baseado em interpretação visual, cruzado às bases cartográficas.

• Classificação Preliminar do Perigo: feito através do estabelecimento de limiares de classificação baixo, moderado, alto e muito alto.

Resultados se constituem importantes ferramentas de auxílio à gestão pública, que baseada nessas informações têm embasamento para a tomada de decisão quando da restrição de urbanização dessas áreas, seja impedindo que a mesma seja ocupada, seja indicando condições para a sua ocupação.

Mapeando e avaliando a vulnerabilidade


A vulnerabilidade está associada à condição dos elementos sob ameaça ou em perigo (indivíduos, comunidades ou cenários expostos) e pode ser avaliada através do grau esperado de danos e prejuízos no caso do evento acontecer. 

A redução da vulnerabilidade dos elementos expostos é uma das medidas mais eficazes para mitigar os danos humanos, materiais e ambientais.

Sabe-se que não é possível evitar a ocorrência de chuvas intensas ou tempestades, no entanto, podem-se preparar melhor as comunidades e sistemas a fim de que possam ter melhor resposta às ameaças. 

Para tanto, é importante dimensionar e mapear a vulnerabilidade, ou seja, definir o que, quem e quanto são os elementos vulneráveis, onde e como vivem, quais são as relações entre si, para que, a partir disso, se possa trabalhar em medidas efetivas de diminuição da vulnerabilidade, sendo elas estruturais e/ou não estruturais.

O levantamento de dados para mapeamento da vulnerabilidade pode ser realizado por meio do seguinte roteiro:

• Execução de trabalhos de campo: nessa fase é realizado in loco o levantamento dos elementos expostos e vulneráveis. É necessário observar as características físicas e ambientais, as infraestruturas e os serviços disponíveis na área analisada, o perfil da população residente nestas áreas. Para a melhor sistematização dos dados, pode-se preparar questionários para serem aplicados junto aos moradores ou formulários para levantamento de informações sobre as moradias.

• Trabalho de escritório: compreende a compilação e a geração de informações a partir das observações de campo, bem como a conciliação de informações espaciais de diferentes fontes. Algumas ferramentas para a geração de mapas podem ser utilizadas, como os Sistemas de Informações Geográficas (SIG), que permitem a realização de análises complexas, ao integrar dados de diversas fontes e ao criar bancos de dados georreferenciados. 

Exemplo: No próprio site do IBGE, é possível espacializar e criar alguns mapas com informações dos habitantes do seu município por setor censitário. 

Através do link http://www.censo2010.ibge.gov.br/sinopse/index.php?dados=2R&uf=43 é possível escolher algumas variáveis de interesse para caracterizar a população residente, por exemplo, por faixa etária.

Há alguns itens essenciais a serem observados que contribuem para a construção do mapeamento, a partir da análise da vulnerabilidade física, vulnerabilidade de função e vulnerabilidade social.

Vulnerabilidade física -> Observe as condições ambientais da área em análise, a localização e o padrão construtivo das instalações, a exposição a situações que as colocam em risco. 

Ao realizar o mapeamento de vulnerabilidade, é importante se ter uma visão integrada das características físicas dos elementos avaliados. 

Identifique locais onde foram retiradas a mata ciliar e a vegetação próxima aos cursos d’água, pois potencializam o assoreamento; obras que modificam a vazão do rio, como canalizações e retificações; e, ainda, atente para a impermeabilização na bacia hidrográfica, que também altera o sistema natural de drenagem.

No caso de deslizamentos, alguns elementos podem indicar vulnerabilidade física:

Terrenos com lançamento de esgotos e águas servidas

O lançamento de água servida ou esgoto nos terrenos propicia a saturação do solo. Em alguns casos, associada a esta situação, até mesmo pouca quantidade de chuva pode ser capaz de deflagrar um deslizamento. 

Esse é o tipo de situação que deve ser atentamente mapeado e solucionado para evitar acidentes, já que podem ocorrer independentemente da estação chuvosa. As moradias que se localizam em terrenos nestas condições possuem maior vulnerabilidade do que aquelas onde não há lançamento de esgotos e águas servidas e que, portanto, não sofrem com a infiltração de águas que levam à saturação dos solos.

Tanto no mapeamento da vulnerabilidade a deslizamentos quanto na vulnerabilidade a
inundações e outros processos, deve-se avaliar:

Padrão construtivo das moradias e características da urbanização

Os materiais utilizados para construção de moradias nos taludes de corte e aterro ou em planícies de inundação podem propiciar maior vulnerabilidade. 

As construções de alvenaria são mais rígidas do que as construções de madeiras, as quais podem ser mais vulneráveis devido à baixa capacidade de resistir ao impacto de processos hidrológicos ou geológicos. 

As áreas onde há predominância de construção do tipo madeira são denominadas de baixo padrão construtivo.

No caso das inundações, um dos principais elementos a ser observado é a ocupação ou não de planícies de inundação, ou seja, aquela área onde o rio, em seu processo natural, extravasa em episódios de cheia. 

A atenção deve ser dada a todos os tipos de loteamento, seja regular ou não. Moradias de alvenaria apresentam maior resistência do que moradias de taipa. 

Entretanto, em caso de enxurradas com alto poder destrutivo, mesmo construções de alvenaria podem ser severamente danificadas ou destruídas. 

Uma observação a ser feita, é que, residências de alvenaria, no caso de desabamentos provocados por deslizamentos ou enxurradas, podem causar danos humanos maiores que aqueles provocados por materiais mais leves, como madeira. 

Além disso, é necessário sempre fazer a avaliação da vulnerabilidade de acordo com a região e o tipo de ameaça que pode ocorrer. Em regiões de inundação, as construções de madeira sobre palafitas, por exemplo, tendem a diminuir a vulnerabilidade.

Vulnerabilidade de função -> Assim como as pessoas, os sistemas de infraestrutura, funções e serviços também podem ser vulneráveis a perigos e sofrer prejuízos ao seu funcionamento. 

Quando afetados, causam impactos diretos e indiretos à população. Em algumas situações, as consequências são sentidas por aqueles que estão a vários quilômetros de onde ocorreu o desastre. 

Por exemplo, as secas que afetam o abastecimento de reservatórios no país elevam o custo da produção de energia elétrica e, consequentemente, da tarifa que é paga pelo consumidor.

Os impactos causados pelos desastres de evolução súbita, como as enxurradas, deslizamentos, vendavais e tornados, ou de evolução gradual, a exemplo das secas, provocam diferentes tipos de transtornos às comunidades. 

Os danos não se restringem apenas aos aspectos econômicos, mas também aos sociais e ambientais. 

As aulas interrompidas em uma escola atingida por uma inundação ou deslizamento levam ao atraso ou até mesmo à perda do ano letivo de estudantes; o lixo acumulado pela falta de coleta pode provocar a contaminação de solos e corpos d’água; a obstrução de uma rodovia ou ponte impede o fluxo de pessoas e mercadorias, entre outros exemplos.

Por Hoje, é Só! Daremos sequência nesse Assunto no Próximo Post. Fiquem a Vontade para Curtir, Compartilhar, Twittar, Fazer Comentários ou Dar Sugestões.






Referências:
https://moodle.ufrgs.br/pluginfile.php/1116073/mod_resource/content/7/Cap%C3%ADtulo%205%20-%20Apostila%20-%20Mapeando%20e%20avaliando%20o%20risco.pdf