quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Entendendo as Inundações Bruscas em Santa Catarina - Novembro de 2008 - Parte 2/4

             

Daremos sequência com o Segundo Post, caso não tenha visto o Primeiro, volte lá e depois Retorne para cá.

O total de perdas e danos estimados pelo Banco Mundial para o período das chuvas de 2008/2009 no estado de Santa Catarina é da ordem de R$ 4.75 bilhões.

Em um segundo plano, os danos (impactos diretos) são superiores às perdas contabilizando, respectivamente, R$ 3.28 bilhões e R$ 1.46 bilhões. Porém, isto não significa que este seja o padrão em situações pós-desastres, visto que a avaliação das perdas (impactos indiretos) é prejudicada pela indisponibilidade de dados e de registros confiáveis.

No caso de Santa Catarina, o desastre teve um maior impacto no setor privado do que no público. Tal fato é consequência da interrupção de uma série de atividades econômicas que dependem de importantes infraestruturas que foram afetadas, a citar o Porto de Itajaí e o Gasoduto Bolívia-Brasil. 

Assim, observa-se a interdependência das atividades e sistemas físicos bem como a escala dos impactos quando infraestruturas críticas são afetadas por desastres naturais.

A distribuição das perdas e danos totais se mostrou equitativa nos setores de infraestrutura e produtivos, com aproximadamente R$ 1.5 bilhões e nos setores sociais com R$ 1.7 bilhões.

Enquanto que os danos são os mais representativos para ambos os setores de infraestrutura e sociais, as perdas superam os custos diretos do desastre para o setor produtivo pela redução da produção devido a indisponibilidade de infraestrutura essencial e queda na demanda de bens e serviços no curto e médio prazo após a ocorrência do desastre.

Já na distribuição setorial, os transportes (30%) e habitação (32%) foram os setores mais severamente afetados pelas chuvas, concentrando grande parte do custo total.

Apenas nos setores de transportes e habitacional, os custos superaram R$ 1.3 bilhões, enquanto na habitação superaram os R$ 1.4 bilhões, assim como os setores produtivos da indústria / comércio e da agricultura que, juntos, tiveram impactos da ordem de R$ 1.4 bilhões (ou 31% dos custos totais do desastre).

Os setores público e privado foram afetados através de canais distintos. Enquanto que as perdas e danos no setor público estão relacionados aos ativos do setor e relevantes custos de reconstrução do setor de transportes, os custos no setor privado se concentram nas perdas no setor produtivo (R$1.4 bilhões) e nos danos no setor habitacional (R$ 1.13 bilhões). 

Entre os municípios afetados, observa-se uma distribuição de perdas e danos concentrada em duas regiões: área metropolitana de Blumenau e município de Itajaí. 

Com relação aos custos totais na região metropolitana de Blumenau, estes estão ligados primeiramente ao setor habitacional devido ao grande numero de casas destruídas e, em segundo plano, ao setor produtivo. 

No município de Itajaí, os custos são provenientes dos impactos diretos e indiretos no Porto e o grande número de casas danificadas. 

Observa-se que o custo de reparo do porto de Itajaí é de menores proporções (porém, ainda significativo) quando comparado aos impactos indiretos na economia gerados pela paralisação das atividades de importação e exportação.

As perdas e danos estimados para o setor habitacional foram da ordem de R$ 1.42 bilhões
dos quais, aproximadamente, 15% (ou R$ 227 milhões) são relativos às unidades populares destruídas e danificadas. Apesar de serem contabilizados como danos privados, estes acabam por recair sobre o setor público de forma indireta quando da reconstrução. 

Os danos em unidades habitacionais não populares também são representativos (R$ 447 milhões); porém, muito inferiores aos danos associados à destruição (R$ 42 milhões) o que pode indicar que estes imóveis não estão localizados em áreas de risco e foram afetados pelas enchentes graduais e não necessariamente por deslizamentos de terra ou inundação brusca.

Com relação as perdas, grande proporção está voltada ao setor público devido a necessidade de financiamento de moradias temporárias e obras de adaptação de infraestruturas de contenção e redução de vulnerabilidades.

Já as perdas de propriedade do setor privado que foram contabilizadas se referem ao valor dos aluguéis associados aos imóveis destruídos.

Do custo total estimado, 78% estão relacionados a danos (impactos diretos) e 22% a perdas, ou seja, impactos indiretos. 

Os danos compreendem desde destruição e danificação das unidades habitacionais bem como uma estimativa dos impactos nos mobiliários segundo a atribuição de um valor médio para unidades populares e não populares. 

Já os efeitos indiretos do desastre se relacionam à aquisição de terrenos, às perdas de receitas com aluguel e aos custos das obras de adequação e redução de vulnerabilidade.

Se tratando dos diferentes extratos sociais, os danos foram de maior monta no segmento popular, com aproximadamente 52% do total. Isto está relacionado ao número de residências populares destruídas: mais de 6 mil casas populares foram completamente destruídas enquanto apenas 780 dos demais segmentos sofreram impacto desta ordem. 

Cabe ainda ressaltar que as informações dos Avadans são preliminares e que o número de casas destruídas e danificadas não foi atualizado em estágios seguintes do desastre.

Assim, de forma geral, como as informações disponíveis não permitem qualificar os impactos sofridos por imóveis de diferentes classes, as estimativas são baseadas em valores médios que podem subestimar os reais impactos.

Com base nas informações oficiais disponíveis, é possível municipalizar os impactos sofridos. 

Em relação aos municípios nos quais foi declarado Estado de Calamidade Pública (ECP), Blumenau foi o que mais sofreu com danos no setor de habitação popular. Apenas neste segmento, o município responde por 61% da destruição de unidades habitacionais no estado ou 3.000 unidades. 

Os impactos são ainda mais representativos quando se observa que a cidade de Gaspar (integrante da região metropolitana de Blumenau) ocupa a segunda posição no ranking de casas populares destruídas, com 480 unidades. 

Estes dados apontam para uma concentração do impacto na cidade de Blumenau e nos municípios de seu entorno

Em um segundo plano, o município de Gaspar contabilizou o maior número de unidades habitacionais não-populares destruídas no estado: 65% ou 480 moradias destruídas.

Dentre os municípios com maior número de unidades habitacionais afetadas, destaca-se a cidade de Itajaí. O município retrata um padrão particular dado que para ambos os setores (popular e não-popular) a proporção de destruição foi insignificativa. 

Este fato remete a probabilidade de que a ocorrência de inundações graduais na cidade não foi responsável por destruição, mas sim por danificar as unidades habitacionais.

Já para o caso de destruição total, como mencionado anteriormente, o município de Blumenau apresenta-se como líder no segmento popular e a cidade de Gaspar no segmento não-popular. Isso pode remeter ao fato de que houve nas referidas cidades uma concentração do número de inundações bruscas e deslizamentos de encostas (assumindo-se tais eventos como responsáveis pela destruição total de unidades de habitação). 

Tal concentração de eventos pode estar associada à topografia montanhosa da região metropolitana de Blumenau bem como a descontrolada ocupação de áreas de risco.

A dimensão dos impactos na Região Metropolitana de Blumenau se reflete nos custos indiretos de locação de galpões e obras e instalações para adaptação de galpões para moradia provisória. 

Segundo informações do Grupo de Reação, foram desembolsados mais de R$ 5 milhões (R$ 1 milhão para locação e R$ 4 milhões para obras de adaptação) com o propósito de acolher parte dos 30.209 habitantes desalojados e desabrigados, que correspondem a 10% da população da cidade. 

Não se incluem ainda neste número os mais de 11 mil habitantes de Gaspar que não possuíam moradia após o desastre, mas que podem ter recorrido (não em sua totalidade) à ajuda das autoridades de Blumenau para suporte.

As perdas e danos calculados no setor saúde somaram R$ 155 milhões, o que representa cerca de 3.7% do impacto total do desastre. 

Apenas com relação aos danos, os custos contabilizaram R$ 100 milhões enquanto perdas correspondem a quase R$ 55 milhões.

Conforme esperado, as perdas se concentram nos impactos diretos em unidades de saúde (R$ 96 milhões) e custos de recuperação de hospitais. A iniciativa privada responde por danos estimados de R$ 750 mil.

Já as perdas (impactos indiretos), são originárias de uma série de diferentes fontes. Por exemplo, o maior custo está associado aos recursos disponibilizados para o atendimento emergencial (R$ 45 milhões) imediatamente após o desastre de forma a suprir a maior demanda quando comparada a situações cotidianas. 

Operações de resgate também foram responsáveis por custos significativos da ordem de R$ 3.8 milhões, sem se considerar ações de capacitação da defesa civil com um custo extra de R$ 2.5 milhões.

Em resumo, danos estão associados à destruição ou danificação das infraestruturas de apoio ao setor (hospitais, postos de saúde e equipamentos).

Estes são de grande ordem (65%) frente aos custos totais do desastre para o setor da saúde.

As perdas, por sua vez, se devem  principalmente aos custos das ações emergenciais (excluindo abrigos, contabilizados no setor habitação) e campanhas de vacinação. 

Estima-se que cerca de 800 horas de vôos foram necessárias para as ações de busca e salvamento, 1.240 empregados efetivos envolvidos nas ações e 301 viaturas / embarcações utilizadas nas operações. Junto com mortos e feridos, os impactos humanos do desastre em Santa Catarina se distribuíram com o aumento dos casos de leptospirose conforme relatado pela secretaria de saúde do estado.

A proporção de perdas e danos por setor (privado e público) apresenta um cenário preocupante, pois, em quase sua totalidade, os custos incorrem sobre o setor público. 

De fato, as perdas e danos para setor privado podem ter sido subestimados visto que os dados coletados são declarados de forma espontânea pelo setor e não foi realizada nenhuma pesquisa mais profunda em hospitais e clínicas privadas bem como agências de seguro. 

Em contrapartida, em situações de desastres, o setor público deve arcar com custos de reconstrução / reparo assim como é responsável por todas as ações emergenciais, resgates e etc. 

Geograficamente, os impactos se distribuíram em três diferentes áreas: região metropolitana de Blumenau, cidades de Itajaí e Camburiú e cidade de Joinville.

Apenas nos municípios de Blumenau e Gaspar estima-se que cerca de 370 mil atendimentos médicos deixaram de ocorrer devido ao desastre.

Entretanto, mais de 272 mil atendimentos emergenciais foram realizados. 

Complementarmente, impactos secundários em Blumenau e região podem ser retratados com o elevado número de suspeitas de casos de leptospirose: 949 ou 32% do total do estado. Em específico para Itajaí e Camburiú, o número de atendimentos médicos não realizados foi da ordem de 81 mil e de atendimentos médicos emergenciais de 550.

Por Hoje, é Só! Mas, Daremos Continuidade a Esse Assunto no Terceiro Post. Espero Vocês! Até Lá......

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Referências:
https://moodle.ufrgs.br/pluginfile.php/1118816/mod_resource/content/1/Inunda%C3%A7%C3%B5es%20Bruscas%20em%20Santa%20Catarina.pdf