domingo, 30 de novembro de 2014

Inundações e Deslizamentos na Região Serrana do Rio de Janeiro - Janeiro de 2011 - Parte 3/4

            

No setor de infraestrutura de saneamento, as perdas e danos foram estimados em R$ 457 milhões, com a maior parte do impacto registrado nos canais e nos sistemas de drenagem da região, e a propriedade das perdas e danos principalmente do setor público. 

Este valor representa 10% do impacto total e corresponde principalmente aos custos diretos das inundações e deslizamentos.

De acordo com os relatórios de avaliação de danos dos municípios afetados, nove estações de tratamento de água foram atingidas, assim como 87.500 metros da rede de distribuição de água. Além disso, 39.600 metros da rede coletora de esgoto também foram danificados pelo desastre. 

Todavia, tendo em vista a natureza preliminar dessas informações e que, além disso, não foi possível verificar esses dados com base nas informações da Secretaria de Obras do Estado do Rio de Janeiro, a quantificação dos danos físicos ainda está sujeita a revisões.

No setor de infraestrutura de saneamento praticamente não foi possível estimar os custos indiretos associados ao desastre de janeiro de 2011. 

Todavia, é importante ressaltar que além das perdas decorrentes dos prejuízos aos sistemas de coleta e tratamento de resíduos sólidos reportados pelos municípios, estimadas em aproximadamente R$ 3 milhões, as interrupções no abastecimento, os possíveis aumentos de custos operacionais, os gastos com medidas provisórias para o restabelecimento do fornecimento de água são apenas alguns exemplos de perdas incorridas por agentes do setor que não foram contempladas nas estimativas acima. 

Logo, embora de acordo com as estimativas os canais de impacto direto do desastre no setor de saneamento sejam responsáveis por praticamente todos os custos (99%), a distribuição entre perdas e danos pode se tornar menos assimétrica caso informações adicionais sejam disponibilizadas.

Entre os subsetores, chama a atenção o alto custo das obras de recuperação nos canais de Nova Friburgo, orçadas em aproximadamente R$ 350 milhões.

Além disso, apenas em Teresópolis a reconstrução dos sistemas de drenagem tem custo estimado em mais de R$ 60 milhões. Como não estavam disponíveis informações sobre esse tipo de dano nos outros municípios, é possível que os custos de recuperação da rede de drenagem na região sejam ainda mais elevados.

Análises da distribuição espacial das perdas e danos no setor também requerem a mesma ressalva: informações relevantes sobre itens importantes e com alto custo de recuperação não puderam ser obtidas para todos os municípios, de modo que a concentração de aproximadamente 98% do impacto apenas nas cidades de Nova Friburgo e Teresópolis refletem, ao menos em parte, a indisponibilidade de informações sobre os danos nos outros cinco municípios. 

Em todo caso, Nova Friburgo tende a ser a município mais afetado no setor em função dos danos aos canais e canaletas da cidade, padrão consistente com a avaliação no setor habitacional.

Da mesma forma, embora parte do impacto tenha ocorrido sobre ativos de empresas privadas da região, o alto custo das obras de recuperação da rede de drenagem e dos canais implica em uma forte concentração dos custos sobre o setor público (R$ 418 milhões).

Assim, mais de 90% das perdas e danos estimados no setor de infraestrutura de saneamento podem ter implicações fiscais diretas em algum nível de governo (municipal, estadual ou federal).

Enfim, o restabelecimento dos sistemas de drenagem concentra uma parcela significativa do impacto sobre os ativos e equipamentos do setor de infraestrutura de saneamento, embora os custos de recuperação dos canais de Nova Friburgo (impacto transversal, estimado no setor de saneamento) representem 77% das perdas e danos totais, o que justifica tanto a concentração do impacto em Nova Friburgo quanto sobre o setor público.

No setor de infraestrutura de energia, as perdas e danos foram estimados em R$ 35 milhões, incidentes sobre o setor privado (concessionárias da Região Serrana), dos quais R$ 22 milhões são referentes aos custos diretos do desastre.

Tais estimativas não incorporam, por exemplo, o custo de reposição de duas pequenas centrais elétricas destruídas em Nova Friburgo, nem o valor da energia de geração própria que deixou de ser produzida no município desde janeiro de 2011. 

As perdas de receitas das concessionárias em função da redução do consumo no setor industrial também não estão explícitas nas perdas e danos do setor de infraestrutura de energia.

Os custos diretos representam 63% do impacto estimado total e correspondem principalmente aos custos de recuperação das redes de transmissão e distribuição, embora a concessionária de Nova Friburgo tenha sofrido com os danos em sua subestação e com a destruição de um alimentador – além da destruição nos seus equipamentos de geração.

Segundo relatório produzido pela Energisa Nova Friburgo e disponibilizado pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), foram destruídos postes e estruturas diversas, cabos foram partidos e árvores e barreiras tombaram sobre a rede, comprometendo o abastecimento não apenas em Nova Friburgo, mas em Amparo, Lumiar, São Pedro da Serra, Campo do Coelho e Conquista.

Assim, embora a indisponibilidade de dados não tenha permitido estimar as perdas referentes a interrupção no fornecimento de energia, informações parciais indicam um impacto relevante e que transcendeu as sete cidades em Estado de Calamidade Pública - a Ampla Energia, concessionária nas outras seis cidades afetadas, também investiu valores significativos no restabelecimento (provisório e permanente) do fornecimento.

Ainda em relação aos impactos indiretos das inundações e deslizamentos na Região Serrana, vale mencionar que a redução imediata (primeiros dias após o desastre) do consumo industrial/rural/comercial pode estar implícita nas estimativas de perdas de receita desses setores, mas as perdas com a redução do consumo residencial e público,
bem como a redução de consumo ao longo do semestre em todos os setores, não foram estimadas.

Segundo dados na Energisa Nova Friburgo, em função do desastre, no primeiro trimestre de 2011 o consumo industrial caiu 23.4% em relação ao mesmo período de 2010. 

No segundo trimestre, a queda em relação ao consumo no segundo trimestre de 2010 foi de 13.2% e, com isso, o recuo acumulado nos primeiros seis meses de 2011 foi de 18.2%. 

De acordo com o relatório da concessionária, as atividades industriais mais afetadas foram a têxtil, a de artigos de vestuário e o ramo de papel e celulose, com queda no consumo acumulada no semestre de 65.2%, 25% e 17.2%, respectivamente.

O setor rural também consumiu menos energia em função das inundações e deslizamentos.

Na comparação com o primeiro trimestre de 2010, o consumo da classe foi 17.5% menor. O consumo pela classe residencial também caiu nos primeiros três meses do ano (-6.2%), mas demonstrou recuperação já no segundo trimestre (alta de 0.2% em relação ao consumo no mesmo período do ano anterior).

Outro dado que sugere um impacto indireto relevante no setor de infraestrutura de energia é a redução no número de unidades consumidoras nos setores industrial e rural. 

Na comparação com o mês de junho de 2010, em junho de 2011 o número de unidades consumidoras industriais atendidas pela Energisa Nova Friburgo caiu 2.4%, enquanto a quantidade de unidades consumidoras rurais ficou 1% menor.

Nos setores econômicos (agricultura, indústria e comércio e serviços), as perdas e danos foram estimados por organizações setoriais através de pesquisas de campo realizadas na ocasião do desastre. 

A consolidação destes resultados oferece um panorama geral do impacto imediato das inundações e deslizamentos sobre a atividade econômica na região.

Todavia, mais de um ano depois diversos subsetores ainda se recuperam, de modo que as estimativas aqui apresentadas tendem a subestimar o impacto total ao omitirem as perdas de prazo mais longo.

No setor agrícola, as perdas e danos foram estimados pela Secretaria de Agricultura e Pecuária em R$ 214 milhões.

Foram degradados cerca de 2.800 hectares nos sete municípios atingidos e 2.096 hectares de lavouras ou pastagens foram afetados. Além da produção destruída nas diversas lavouras afetadas, os municípios perderam cabeças de gado, estradas, pontes, equipamentos e moradias na área rural.

Esses danos causaram outras perdas indiretas como, por exemplo, a produção perdida por dificuldades de escoamento em função dos danos no setor de transportes. 

Os danos foram estimados em R$ 124 milhões, valor que corresponde a 58% dos custos estimados totais.

Os danos às moradias nas áreas rurais incluem a destruição de 449 unidades habitacionais e o comprometimento (recuperável) de outras 404 moradias. 

Além disso, segundo a Secretaria de Agricultura e Pecuária, os sistemas de captação e abastecimento de água foram danificados na maior parte dessas propriedades.

Diversas máquinas, veículos e equipamentos agrícolas desapareceram ou foram destruídos: 34 tratores, veículos utilitários e caminhões, 700 equipamentos de irrigação, além de outros utensílios e ferramentas.

Entre as instalações de produção destruídas estavam 102 galpões, 13 câmaras frigoríficas, 364 estudas, 31.500 metros de rede elétrica, 50 quilômetros de cerca e duas agroindústrias. 

Escritórios regionais de assistência técnica e pesquisa, bem como equipamentos de informática e laboratórios também foram danificados.

De acordo com a Secretaria de Agricultura e Pecuária, nas áreas de produção agrícola ocorreram erosões e deslizamentos de encostas, aterramentos pela lama, lixiviação de fertilizantes e extinção de áreas de cultivo. 

Diversos agricultores perderam o ponto de colheita ou não conseguiram escoar a produção. Ordenhas foram interrompidas e animais foram soterrados ou carregados pelas enxurradas (230 mil aves de corte e 7.500 aves de postura foram contabilizadas mortas). 

Assim, as perdas decorrentes da interrupção das atividades foram estimadas em R$ 90 milhões nas sete cidades em Estado de Calamidade Pública.

Cerca de três mil hectares foram diretamente afetados pelo desastre, sendo que mais de 60% das áreas atingidas eram cultivadas com olericultura (hortaliças). 

É importante mencionar que a Região Serrana é um importante produtor e fornecedor de produtos agrícolas no Estado do Rio de Janeiro: 

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2009 o valor adicionado na agricultura pelos sete municípios afetados correspondeu a 18.55% do valor adicional na agricultura no estado do Rio de Janeiro; de acordo com a Secretaria Estadual de Agricultura e Pecuária do Rio de Janeiro, mais de 20% das folhosas, legumes e verduras consumidas no Estado do Rio de Janeiro são produzidas na Região Serrana. 

De fato, durante a fase pós-desastre foi amplamente divulgado o aumento dos preços dos produtos agrícolas no estado do Rio de Janeiro como conseqüência das inundações e deslizamentos.

A fim de avaliar o impacto do desastre, foram visitadas mais de 15 mil propriedades, sendo que 13.806 eram unidades de agricultura familiar (mini e pequenas propriedades), característica da região, principalmente em Teresópolis e São José do Vale do Rio Preto, onde, segundo a Secretaria Estadual de Agricultura e Pecuária, cerca de 90% das propriedades têm até 10 hectares.

Enfim, o levantamento realizado pela instituição local indica impactos relevantes não apenas sobre as áreas cultivadas, mas também sobre recursos de produção que seriam importantes para a retomada das atividades no setor. 

Além disso, embora as perdas e danos sejam de propriedade privada, o impacto concentrado em pequenos produtores tende a reforçar ainda mais a absorção destes custos pelo setor público, o que caracteriza o setor agrícola como mais um canal de transmissão com potencial para gerar implicações fiscais tanto no nível de governo local, como estadual e federal.

Por Hoje, é Só! Daremos sequência nesse Assunto, no Quarto e Último Post. Fiquem a Vontade para Curtir, Compartilhar, Twittar, Fazer Comentários ou Dar Sugestões.






Referências:
https://moodle.ufrgs.br/pluginfile.php/1118816/mod_resource/content/1/Inunda%C3%A7%C3%B5es%20Bruscas%20em%20Santa%20Catarina.pdf