domingo, 30 de novembro de 2014

Inundações e Deslizamentos na Região Serrana do Rio de Janeiro - Janeiro de 2011 - Parte 4/4

              

Durante a fase pós-desastre, a Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro) avaliou o impacto das inundações e deslizamentos sobre a atividade industrial nos sete municípios em ECP entre os dias 11 a 15 de janeiro, e as perdas e danos foram estimados em R$ 153.4 milhões, valor que representa 3% dos custos totais.

Os danos aos estoques de matéria-prima e produtos acabados somaram cerca de R$ 31 milhões, enquanto as perdas decorrentes de redução na produção foram estimadas em R$ 123 milhões.

Assim, no setor industrial os custos indiretos do desastre representam 80% do impacto estimado total. Mais de 83% das empresas foram afetadas pela falta de energia elétrica, 73.4% tiveram problemas com as linhas telefônicas e 67.6% enfrentaram uma redução no quadro de funcionários. 

As unidades que sofreram alagamentos no entorno da empresa ou no parque industrial representam 38.2% e 21.4%, respectivamente. Ainda de acordo com a Firjan, 59.5% das empresas declararam que em função do desastre encontraram dificuldades no recebimento de matéria-prima. 

As dificuldades no escoamento da produção, por sua vez, afetaram 62.4% das empresas pesquisadas na região. A capacidade de produção e o volume de vendas, por sua vez, afetaram 65.3% e 84.4% das empresas, respectivamente.

Em relação ao perfil das empresas pesquisadas, cerca de 96% eram de micro ou pequeno
porte, e 97.8% eram indústrias de transformação (2.2% eram empresas de construção civil).

A maior parte delas (46.4%) estava localizada em Nova Friburgo, município em que o setor foi mais atingido. Em Petrópolis e Teresópolis, por sua vez, estavam localizadas 31.7% e 17.3% das empresas, respectivamente.

Em Nova Friburgo, aproximadamente 80% das empresas foram afetadas pelas inundações e deslizamentos, sendo que, em média, 70% dos funcionários não puderam trabalhar no período da pesquisa. 

Na cidade, mais de 96% das empresas sofreram com a falta de energia elétrica e, além disso, mais de 90% tiveram problemas com as linhas telefônicas, indícios de que o impacto no setor de telecomunicações, embora omitido nessa avaliação em função da falta de informações, foi significativo.

Em Teresópolis, 68.8% das empresas foram afetadas e 64% sofreram redução no quadro de funcionários. No município, 97% e 66.7% das indústrias reportaram falta de energia elétrica e problemas com a linha telefônica, respectivamente. 

Todavia, na cidade apenas 9% das empresas pesquisadas tiveram o parque industrial alagado.

Em Petrópolis, 30.7% das unidades industriais sofreram algum tipo de impacto e 14.8% das empresas reportaram problemas nas linhas telefônicas e no fornecimento de energia elétrica. 

Cerca de 18% das indústrias da cidade reportaram alagamentos no entorno do parque industrial, e 14.8% tiveram suas instalações alagadas.

Nota-se, portanto, que embora de um modo geral a menor parte dos parques industriais sofreu diretamente com os alagamentos, os impactos no entorno, nos serviços de fornecimento de energia e de telecomunicações, as dificuldades de escoamento da produção e de recebimento de matéria-prima, bem como a redução no quadro de funcionários durante a fase pós-desastre reduziram a produção e geraram perdas significativas no período analisado.

No setor de comércio e serviços, as perdas e danos foram estimados pela Fecomércio do Rio de Janeiro em R$ 469.2 milhões. De acordo com a pesquisa realizada pela instituição, 71.54% dos estabelecimentos sofreram algum impacto indireto, enquanto 28.46% foram diretamente afetados pelo desastre. Todavia, não foi possível distribuir o valor estimado total entre impacto direto e indireto.

Entretanto, o tipo de prejuízo mais freqüente (88.94%) entre as empresas pesquisadas, a saber, perda ou queda de faturamento (com valor médio de R$ 19.794,05), sugere que as perdas associadas ao desastre tenham sido relevantes.

De acordo com a Fecomércio do Rio de Janeiro, estima-se que 84% dos estabelecimentos da região tenham sido afetados direta ou indiretamente pelo desastre, sendo que, cerca de duas semanas depois, 557 estavam fechados por conta das inundações e deslizamentos.

A pesquisa também levantou as principais dificuldades enfrentadas pelas empresas do setor no período pós-desastre. 

Em mais de 67% dos casos, a ausência de clientes era o principal obstáculo ao funcionamento dos estabelecimentos. Falta de recursos financeiros, morosidade nas ações do poder público e as dificuldades de locomoção dos clientes também estão entre os principais pontos negativos aos negócios na região depois das inundações e deslizamentos.

Em relação aos setores de telecomunicações, educação, saúde e turismo, a falta de informações detalhadas inviabiliza análises setoriais mais abrangentes. Todavia, com base em dados parciais e nas informações dos Avadans é possível estabelecer valores mínimos para as perdas e danos em cada um desses setores.

No setor educacional, o Ministério da Educação autorizou o repasse no valor de R$ 74 milhões para a recuperação da rede pública de ensino e, além disso, de acordo com os Avadans, sete escolas particulares foram destruídas ou danificadas e o custo de recuperação desses ativos foi estimado pelas prefeituras em R$ 630 mil. 

Naturalmente, diante das dificuldades de acesso a diversos pontos das cidades afetadas durante a fase emergencial, esse levantamento de danos deve ser considerado parcial.

Na área da saúde, de acordo com os relatórios de avaliação, os danos a rede pública e privada de atendimentos somaram R$ 2.5 milhões. Além disso, o Ministério da Saúde autorizou repasse no valor de R$ 8.7 milhões para ampliação do atendimento hospitalar na região. As perdas e danos mínimos no setor são estimados em R$ 11.2 milhões.

No setor turismo, dados de imprensa indicam danos aos equipamentos da região de ao menos R$ 7 milhões e, segundo estimativas de instituições do setor, a redução de receitas nos primeiros meses do ano chegaria a R$ 50 milhões. As perdas e danos totais foram estimados em R$ 59.4 milhões.

Os danos ambientais, por sua vez, foram reportados pelos municípios nos Avadans. No caso específico da Região Serrana, foram excluídos os danos ao solo na categoria “deslizamentos” para que duplas contagens fossem evitadas (as obras de contenção de encostas foram contabilizadas no setor habitacional).

No setor de infraestrutura de telecomunicações, de acordo com os relatórios de danos, o custo de recuperação dos 242 quilômetros de rede danificados ou destruídos foi estimado em R$ 9.3 milhões. 

De fato, durante a fase pós-desastre foram reportadas diversas interrupções na prestação dos serviços, conforme reforçado pelas informações contidas na pesquisa junto aos setores industrial e comercial. 

Além da recuperação das redes de telefonia fixa e móvel, as empresas do setor também sofreram perdas referentes ao restabelecimento provisório dos serviços de comunicação (doação de aparelhos celulares, por exemplo, para as vítimas do desastre). 

Portanto, o impacto sobre o setor inclui ainda custos indiretos que não foram incorporados nessa avaliação.

As informações apresentadas neste relatório para os desastres da Região Serrana do Rio de Janeiro em 2011 traçam cenários similares aos de regiões reconhecidamente afetadas por desastres no mundo. 

Em um primeiro plano, os custos totais dos impactos econômicos, mesmo que subestimados no caso do presente documento devido a não disponibilidade de dados específicos, são significativos para a economia do estado. 

Em um segundo plano, o estado do Rio de Janeiro vem sofrendo com a ocorrência de desastres de forma recorrente o que remete ao fato de que o mesmo é vulnerável e, portanto, medidas de gestão de riscos e desastres devam ser incorporadas na agenda pública.

Segundo uma análise geral do evento na Região Serrana, os custos totais de R$ 4.78 bilhões são representativos frente a economia dos municípios afetados. 

Dados do IBGE para o PIB total dos sete municípios foram da ordem de R$ 11.8 bilhões para o ano de 2009. 

Logo, os desastres incorreram em danos e perdas de aproximadamente 40% do total do PIB do ano de 2009. 

Note que estes foram os custos estimados, mas que por razões de complexidade de análise e falta de dados, os efeitos pós-desastres não foram contabilizados o que pode indicar ainda maiores impactos em decorrência dos eventos de 2011. 

Assim, conclui-se que os valores são representativos nas atividades econômicas da Região Serrana, que ainda enfrenta desafios para se recuperar de forma integral para sua situação pré-desastres. 

Além da necessidade de recuperação e reconstrução dos sistemas afetados, existe a necessidade de redução de riscos e vulnerabilidades e que, somente no caso específico dos sete municípios afetados, foram estimados em R$ 1 bilhão para obras de contenção de encostas sem se considerar os custos de reassentamento de população em áreas de risco, por exemplo.

Em específico, o padrão de impactos dos desastres de 2011 remete a grande vulnerabilidade do setor habitacional que, de forma individual, responde por quase a metade das perdas e danos totais estimados (R$ 2.6 bilhões). 

Quando segmentado nos 7 municípios afetados pelo evento, pode-se concluir que os impactos são extremamente representativos para as economias de cada cidade. Além disso, parte relevante dos custos é proveniente de destruição e danificação de habitações populares que, de forma indireta, são arcados pelo poder público.

É importante ainda ressaltar que em conjunto com o aumento dos impactos econômicos de desastres no estado do Rio de Janeiro, observa-se um incremento significativo do número de mortos. 

Apenas nos desastres da Região Serrana, 905 pessoas perderam suas vidas, o que representa 50% do total de mortes em 20 anos de desastres no estado (entre os anos de 1991 e 2010, foram registrados 28 desastres e 1.783 mortes). 

Por fim, deve-se atentar ao fato de que os registros podem ser incompletos devido a pouca tradição do Brasil no setor de gestão de riscos e desastres e, portanto os reais impactos econômicos e sociais possam estar sendo subestimados.

ANEXO 1. Habitação: Avaliação de Perdas e Danos

A. Fontes de dados

- Relatórios de Avaliação de Danos da Secretaria Nacional de Defesa Civil.
- Tabelas do programa Minha Casa, Minha Vida.
- Censo de 2010 (IBGE).
- Relatórios das Secretarias de Estado do Rio de Janeiro.

B. Premissas

- Custo de reconstrução de unidade habitacional popular destruída em R$ 63 mil, conforme tabela do Programa Minha Casa, Minha Vida.
- Custo de reconstrução de unidade habitacional popular é de, no mínimo, 25% do custo de construção de uma unidade habitacional popular.
- Custo de recuperação de unidade habitacional (popular e não-popular) é 25% do custo de reconstrução.
- Mobiliário completo de unidade habitacional estimado em R$ 3.500. Custo de reposição de mobiliário de domicílio destruído é estimado em 60% de um kit completo.
Custo de reposição de mobiliário de domicílio danificado é estimado em 30% de um kit completo.
- As perdas de receita por aluguel das unidades não–populares destruídas foram calculadas para um período de 12 meses e com base nos valores dos benefícios de auxílio-reação.

C. Omissões

- Custos de elaboração de laudos de vistoria.
- Custos de obras de terraplanagem e preparação dos terrenos dos novos conjuntos habitacionais.

ANEXO 2. Transporte: Avaliação de Perdas e Danos

A. Fontes de dados

- Relatórios de Avaliação de Danos da Secretaria Nacional de Defesa Civil.
- Secretaria Estadual de Obras do Rio de Janeiro.

B. Premissas

- Os custos foram obtidos a partir de dados e estimativas fornecidos pela Secretaria de Obras do estado do Rio de Janeiro. Após o desastre, um diagnóstico foi realizado e as obras de recuperação necessárias foram orçadas e organizadas em base de dados da Secretaria estadual. Não foi possível obter detalhes e valores unitários para as obras e projetos contidos na referida base de dados.

C. Omissões

- Aumento de custos de transportes decorrentes de atrasos, desvios ou interrupções de tráfego.
- Custos de ações provisórias para o restabelecimento das condições de tráfego, como pontes do exército, por exemplo.
- Lucros cessantes de transportadores decorrentes das interrupções de tráfego.
- Aumento de custos de transportes decorrentes das demandas do setor não atendidas.

ANEXO 3. Saneamento: Avaliação de Perdas e Danos

A. Fontes de dados

- Relatórios de Avaliação de Danos da Secretaria Nacional de Defesa Civil.
- Secretaria Estadual de Obras do Rio de Janeiro.

B. Premissas

- Os custos foram obtidos a partir de dados e estimativas fornecidos pela Secretaria de Obras do estado do Rio de Janeiro. Após o desastre, um diagnóstico foi realizado e as obras de recuperação necessárias foram orçadas e organizadas em base de dados da Secretaria estadual. Não foi possível obter detalhes e valores unitários para as obras e projetos contidos na referida base de dados.

C. Omissões

- Perdas de receitas das companhias de abastecimento de água e coleta de esgoto.
- Custos de obras de expansão da rede de distribuição de água e coleta de esgotos para os novos conjuntos habitacionais.

ANEXO 4. Energia: Avaliação de Perdas e Danos

A. Fontes de dados

- Relatórios de Avaliação de Danos da Secretaria Nacional de Defesa Civil.
- Energisa Nova Friburgo
- Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).
- Eletrobrás.

B. Premissas

- Foram considerados as quantidades e valores reportados pela Energisa Nova Friburgo em relatório entregue a Aneel para o processo de revisão tarifária da companhia.
- Foram utilizadas informações sobre o uso de recursos da Reserva Global de Reversão pelas concessionárias da região.

C. Omissões

- Perdas de receitas das companhias de energia elétrica devido a redução do consumo pelo setor industrial (e outras classes de consumo).
- Perdas com a energia própria não gerada nas pequenas centrais elétricas destruídas em Nova Friburgo.
- Eventuais aumentos de custos operacionais no setor.

ANEXO 5. Setores Econômicos: Avaliação de Perdas e Danos

A. Fontes de dados

- Levantamento realizado pela Secretaria Estadual de Agricultura do Rio de Janeiro.
- Levantamento realizado pela Fecomércio do Rio de Janeiro.
- Levantamento realizado pela Firjan-RJ.

B. Premissas

- Foram considerados os valores reportados pelas instituições referidas, obtidos a partir de metodologias próprias de cada organização.
- De acordo com as pesquisas acima, foram considerados apenas impactos imediatos, estimados a partir de pesquisas de campo realizadas poucos dias após o desastre.

C. Omissões

- Perdas de receitas no médio e longo prazos.
- Aumento de custos de insumos e de distribuição de produtos após a fase emergencial.
- Impactos nos municípios de menor porte.

ANEXO 6. Setores Omitidos: Avaliação de Perdas e Danos

A. Fontes de dados

- Relatórios de Avaliação de Danos da Secretaria Nacional de Defesa Civil.
- Informações do Ministério da Saúde.
- Informações do Ministério da Educação.
- Informações do Ministério do Turismo.

B. Premissas

- Foram considerados as quantidades e valores reportados pelos municípios através dos Avadans e dos repasses de recursos divulgados pelos Ministérios da Educação e Saúde.

C. Omissões

- Perdas de receitas das companhias de telecomunicações.
- Custos de medidas temporárias de restabelecimento dos meios de comunicação.
- Custos das ações de resgate e atendimento à população atingida pelos deslizamentos.
- Aumento de custos operacionais nos setores atingidos.

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Referências:
https://moodle.ufrgs.br/pluginfile.php/1118816/mod_resource/content/1/Inunda%C3%A7%C3%B5es%20Bruscas%20em%20Santa%20Catarina.pdf